Compostagem: quanto acrescentar de rochas?

Muitos agrônomos e produtores me fazem essa pergunta. Costumo respondê-los com outra: Estamos falando de compostagem para solos de clima temperado ou tropical? No Brasil, a compostagem normalmente ensinada (e praticada) sempre foi a dos países de clima frio ou temperado. Nesse tipo de compostagem, quando usada para substituir parcial ou totalmente a adubação mineral, […]

  • Por ibaagrbr
  • 27 jan
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Muitos agrônomos e produtores me fazem essa pergunta. Costumo respondê-los com outra: Estamos falando de compostagem para solos de clima temperado ou tropical?

No Brasil, a compostagem normalmente ensinada (e praticada) sempre foi a dos países de clima frio ou temperado. Nesse tipo de compostagem, quando usada para substituir parcial ou totalmente a adubação mineral, a dose por hectare é calculada da mesma forma de sempre. Ou seja, interessa saber quantos quilos de nutrientes minerais estamos fornecendo ao solo, através daquele composto.

Nesse raciocínio, é comum ouvir que, ao acrescentarmos as rochas, estamos “enriquecendo” o composto. A quantidade de rochas a ser acrescentada então, é função das respectivas garantias de minerais, do percentual dessas garantias que estaria disponível às plantas na primeira safra, das análises do solo e da necessidade (extração ou exportação) da cultura.

Para se acrescentar rochas moídas a um composto tropical, o raciocínio não deve ser o mesmo. Nos solos tropicais, se quisermos produzir bem por muitos anos, temos que nos preocupar mais com os fluxos do que com os estoques, tanto de minerais como, e principalmente, do Carbono.

Nesse sentido sabemos que, para um dado solo e clima, é a biologia do solo (biota + raízes) quem mais impacta a velocidade e eficiência desses fluxos.
É claro que cada cultura necessita, ao seu grau, da presença dos nutrientes minerais no solo. O que considero bastante questionável são basicamente dois pontos:

  1. Os métodos para calcular a eficiência da absorção vegetal de cada agroecossistema, ou seja, do total de minerais aplicados naquele solo, naquele momento e daquela forma, quanto será efetivamente absorvido pela cultura.
  2. Os métodos para mensuração das quantidades de nutrientes minerais disponíveis no solo. Comumente se utilizam amostras de solo, coletadas de 0 – 20cm de profundidade, submetidas à extratores universais. Não são considerados os nutrientes presentes nas camadas mais profundas, nem aqueles não evidenciados pelos extratores, porém acessíveis conforme as características dinâmicas da biologia daquele sistema.

Considerando apenas esses dois pontos, já poderíamos afirmar que estamos aplicando talvez o dobro, outras vezes só a metade, dos nutrientes minerais necessários à máxima produtividade. Se aplicamos a metade do necessário, colheremos menos pela falta desses elementos.

Se aplicamos o dobro, colheremos menos por conta dos efeitos colaterais adversos causados ao sistema, pela overdose de adubos minerais sintéticos ou altamente solúveis.

Por esse, e por vários outros motivos, em solos tropicais precisamos entender com que eficiência estão funcionando os fluxos dos elementos, dentro de cada sistema em particular. Exige observação e experimentação, o que dá trabalho, pois generalizar é sempre mais fácil.

Pois bem! Qual seria então a quantidade de rochas a ser acrescentada, em uma compostagem tropical? Resposta: o composto mais adequado aos solos tropicais é aquele que cumpre melhor esses dois objetivos principais:

  1. Fornecer à biota do solo e às plantas, um substrato orgânico de qualidade superior, um mix de substâncias orgânicas em diferentes estágios de decomposição, como fonte de alimento;
  2. Ser um multi-inoculante microbiano abundante e poderoso, para reforçar anualmente a população e a diversidade microbiana do solo.

Para conseguirmos uma boa compostagem tropical, é imprescindível que interrompamos, pela falta de umidade, o curso da compostagem, assim que a máxima qualidade como substrato microbiano for atingida. Isso significa que a compostagem tropical é mais rápida que a de clima temperado? Sim!

Mas… e as rochas? Bem, sabemos na prática que o que determina, quase sempre, a dose máxima de composto aplicado/ha são os fatores operacionais (máquinas/tempo) e econômicos (custo/ha). Sendo assim, para acrescentarmos as rochas, temos que diminuir a quantidade orgânica do composto aplicado. Desse modo, estaríamos “empobrecendo” ao invés de enriquecendo o composto.

Por exemplo: se a dose máxima viável é de 6t/ha, em uma determinada lavoura, ao utilizar uma receita de composto com 30% de rochas, estaremos na verdade aplicando apenas 4,2t/ha de parte orgânica (substrato + multi-inoculante + substâncias húmicas).

Pois bem, então, dentro desse raciocínio, é melhor não acrescentar rochas ao composto tropical?

Resposta: nem sempre! Muitas vezes conseguimos compatibilizar as duas coisas (parte orgânica e rochas) na compostagem. Isso nos traz ao menos duas vantagens: a primeira é operacional, claro, pela possibilidade de unificar duas aplicações em uma só.

A segunda é a possibilidade de aproveitarmos as temperaturas e os ácidos formados durante o processo de compostagem, para promover e acelerar reações entre as duas porções (orgânica e mineral), e assim tornarmos parte desses minerais disponíveis e ao mesmo tempo protegidos (ligados à parte orgânica) de perdas por volatilização, lixiviação e adsorção.

Existem várias outras questões envolvidas, que não cabem aqui, mas que também influenciam na decisão sobre as quantidades de cada rocha a ser acrescentada. Por exemplo, o gesso agrícola, por causa de seus resíduos industriais, a partir de certa dose (variável), começa a interferir negativamente na atividade microbiana do composto.

Algumas rochas ricas em magnésio, em altas doses (acima de 20%), reagem com a matéria orgânica, gerando perdas de N por volatilização.
E… como você tem feito então as receitas dos compostos tropicais?

Resposta: cada caso é um caso! Se eu considerar todas as receitas de composto do nosso grupo de consultores (Libertas), desde quando começamos até hoje, teremos acréscimos de rochas que variam de 0 a até 30% do peso seco total inicial. A média, nesse caso, não representaria muita coisa, pois, como eu disse, as situações são particulares.

Para usar na compostagem, preferimos escolher rochas mais concentradas naqueles minerais que o caso requer. Quanto mais concentrado o mineral, menos espaço ocuparemos dentro do composto com aquela rocha. Consequentemente, conseguiremos aplicar maior volume da parte orgânica.

Rochas com teores mais baixos de nutrientes podem ser extremamente interessantes para remineralizar o solo e, de fato, existem várias muito boas. No entanto, ao nosso ver, devem ser aplicadas a lanço, diretamente no solo. A aplicação do composto tropical, nesse caso, deve ser feita após a rochagem, de preferência após as primeiras chuvas.

Caso o produtor não tenha limitações operacionais, depois do composto pronto, pode-se aplicar também as rochas na leira e homogeneizar com a compostadora. Assim pode-se economizar uma aplicação, se bem que os reabastecimentos serão, é claro, mais frequentes.

Uma última observação: durante o processo de compostagem, a parte orgânica pode perder até 50% do peso seco inicial, na forma de CO2. Quanto maior o tempo de compostagem e o número de revolvimentos, maior é a perda de peso. Como as rochas não evaporam, elas acabam ficando com uma concentração relativa mais alta no composto.

Ou seja: quanto maiores as perdas da parte orgânica, mais concentrado em minerais ficará o composto. Isso é mais uma dica para aqueles que ainda insistem em avaliar a qualidade de um composto orgânico, pelos teores de NPK que ele possui…

Antonio N. S. Teixeira

Diretor Executivo – IBA

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