A Fertilidade do Solo é a barriga de Gaia*

Há mais de quarenta anos visito lavouras pelo Brasil. Primeiro, foi como estudante de Agronomia, alguns anos como profissional do comércio de insumos, onze anos como professor universitário, oito como produtor de hortaliças, dez anos como consultor independente. Desde então, convivo diária e intimamente com o agronegócio brasileiro, principalmente nos estados RS, PR, SP, MS, […]

  • Por ibaagrbr
  • 14 maio
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Há mais de quarenta anos visito lavouras pelo Brasil. Primeiro, foi como estudante de Agronomia, alguns anos como profissional do comércio de insumos, onze anos como professor universitário, oito como produtor de hortaliças, dez anos como consultor independente.

Desde então, convivo diária e intimamente com o agronegócio brasileiro, principalmente nos estados RS, PR, SP, MS, MT, GO e MG. Juntos, representam quase 85% da produção agrícola nacional.

O PIB do agronegócio brasileiro já é maior que 2 trilhões de reais/ano, cerca de 27% do PIB total do País. A geração de todo esse imenso recurso financeiro, depende de uma pequena camada, de alguns centímetros de espessura, chamada de solo fértil.

Fertilidade é a capacidade que um ser vivo tem, de gerar mais vida. A mulher fértil, gera filhos, a partir de um óvulo fecundado.

O solo fértil gera plantas, a partir de sementes. Então, a barriga de Gaia, nossa Mãe Terra, são aqueles poucos centímetros de terra fértil, que ficam acima da rocha inerte. Na verdade, é a pequena parte da rocha, que adquiriu vida, após o seu intemperismo e colonização microbiana.

Com a germinação das sementes e o estabelecimento da vegetação, surgem os insetos, as minhocas e todos os seres que compõem esse meta-organismo chamado Solo. A faixa de solo fértil varia, de alguns poucos centímetros até pouco mais de um metro de profundidade.

A vida em nosso Planeta, depende, entre outros fatores, de complexos sistemas multiespecíficos. Quando o grau de complexidade diminui, por causa da diminuição da biodiversidade, o sistema se torna frágil e o equilíbrio pode facilmente ser rompido.

A partir daí, o sistema caminha rapidamente rumo ao colapso, a menos que consigamos, com ações antrópicas inteligentes, inverter o processo.

No caso de sistemas muito grandes, como o da Amazonia ou do próprio Planeta, ações antrópicas somente são capazes de evitar o colapso, se forem tomadas a tempo.

A partir de certo ponto, até onde se sabe, não é mais possível evitá-lo. Já os sistemas de menor porte, como uma fazenda por exemplo, são passíveis de recuperação humana, mesmo se encontrando em estágio avançado de degradação.

Com efeito, podemos considerar cada propriedade agrícola como sendo um pequenino pedaço da “barriga de Gaia”, local de gestação da vida, aqui na Terra. Usando a ciência chamada Agroecologia (sem nenhum viés ideológico), é perfeitamente possível inverter os processos de degradação do solo de uma fazenda.

A aplicação inteligente dos conceitos dessa ciência, que gosto de chamar de “a verdadeira Agronomia”, é capaz de regenerar cada um desses pedacinhos da barriga de Gaia, que chamamos de fazendas, sítios ou propriedades agrícolas.

Sabemos que existe, de forma simultânea, uma degradação de grande porte acontecendo no Planeta, causada, entre outras coisas, pela alta emissão de gases de efeito estufa na atmosfera e pela poluição e pesca predatória nos oceanos.

Mas a boa notícia é que, ao nos concentrarmos em regenerar os solos de cada fazenda, de cada sítio, resolveremos também a questão do aquecimento global (veja em www.4p1000.org ).

Claro que precisamos de ações paralelas, fora do âmbito da Agronomia, como a proibição do uso de combustível fóssil, da pesca predatória e do desmatamento, entre outras.

Essas proibições dependem de ações políticas. E ações políticas dependem da pressão exercida pela sociedade, para acontecerem.

Já no caso da regeneração dos solos das propriedades agrícolas, precisamos que os produtores rurais adotem modelos de produção realmente sustentáveis.

E essa adoção depende basicamente dos resultados econômicos que os produtores perceberão, assim que adotarem o novo modelo. A Agronomia deve se tornar uma ciência integrativa, se quiser liderar esse processo de transição. Deve aliciar, atrair, convocar outras ciências, para executar esse enorme projeto.

Não podemos mais nos enganar, a palavra sustentabilidade não pode ser apenas um adorno conveniente, um adjetivo solto, desconectado da verdadeira situação daquele sistema.

Tampouco pode ser lastreado apenas em uma marca, um insumo, ou em duas ou três tecnologias isoladas. Não pode ser só de fachada. Para ser sustentável de fato, uma produção agrícola deve ser, antes de tudo, agroecológica. Por quê? Porque a Agroecologia é a ciência que estuda os agroecossistemas.

Para uma produção agrícola ser realmente sustentável e rentável, precisamos conhecer e compreender o funcionamento do sistema solo-planta ali existente, saber a respeito do fluxo de massa e de energia, das interações entre os seres vivos que habitam aquele sistema e suas funções.

Saber, enfim, como funciona aquele ser vivo, que chamamos de solo, a barriga de Gaia. É preciso utilizar nossa visão holística. Só assim podemos produzir sem conduzir o sistema ao colapso, degradando o solo.

Hoje já existe consenso, por parte dos estudiosos dos agroecossistemas, e até por boa parte dos produtores, de que o modelo convencional de produção agrícola já se esgotou. Ande um pouco pelas regiões agrícolas, converse com técnicos e produtores.

As cenas se repetem, do RS ao MT: solos compactados, desagregados e sem vida, com sua capacidade de absorção e retenção de água comprometidas, altas populações de nematoides destruindo as raízes da cultura, pragas e doenças com graus de severidade cada vez maiores, apesar dos pesticidas.

A maioria dos produtores ainda está utilizando quantidades de fertilizantes solúveis e de pesticidas que intoxicam o solo, contaminando-o, assim como as águas, os alimentos e as pessoas que os comem.

Mas também há um número crescente de produtores que já estão recuperando seus solos, antes mesmo que venham os prejuízos. Sábia atitude!

Não existe mais espaço para discussões idiotas, como, por exemplo, se devemos chamar os pesticidas de agrotóxicos ou de defensivos. Não existe mais espaço para deixarmo-nos conduzir pela vaidade, ou pelo orgulho, em dizer que colhemos mais sacas ou toneladas que nossos vizinhos, ao custo de estarmos tirando a vida do nosso solo.

Temos que produzir mais e, ao mesmo tempo, regenerar nossos solos. Esse é o desafio!

Tenho a impressão de que um número cada vez maior de produtores já enxergou que não podemos nos submeter às pressões dos interesses imediatistas do comércio de insumos. Não, não temos mais tempo para isso.

Precisamos agora de parceiros, para aplicar todas as energias, todo o foco, na regeneração dos nossos solos. Precisamos regenerar a fertilidade de Gaia, se quisermos prosperar para sempre, e não apenas por alguns anos.

Se você é um produtor rural, um técnico, estudante, enfim, alguém que atua no agronegócio, saiba que podemos ser uma das últimas esperanças de um futuro bom nesse Planeta. Porque, se morre a fertilidade de Gaia, morrem os lucros, morrem as pessoas, morre a vida.

Tome a decisão, arregace as mangas, comece. É algo que vale a pena. Viemos aqui para fazer isso!

*Gaia: na mitologia grega, era a deusa Mãe-Terra. O nome foi dado à hipótese, elaborada por James Lovelock, segundo a qual nosso planeta se comporta como um ser vivo único.

Antonio Teixeira
Diretor Executivo – IBA

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