Agroecologia para os grandes

Ao expor ideias ou conceitos usando palavras, corremos o risco de que eles sejam completa ou parcialmente distorcidos, na mente de quem os ouve ou lê. Ou seja, você está dizendo uma coisa, o outro está entendendo outra. Esse fato é particularmente importante no campo dos substantivos abstratos, como Agroecologia, por exemplo. De acordo com as experiencias de cada um, o conceito de Agroecologia pode lembrar o estudo de técnicas alternativas de produção agrícola. Para outros, uma abordagem político-social, na produção de alimentos. Ainda há os que a confundem com a agricultura orgânica.

Na literatura, existem diferentes definições para Agroecologia, segundo diferentes autores. A maioria delas considera tratar-se de ciência integradora, portanto complexa, que une diversas áreas do saber, o que pressupõe uma abordagem holística e transdisciplinar. Para dentro da porteira, trata essa ciência de estudar e desenvolver técnicas e modos sustentáveis para a produção agrícola, através da compreensão ecológica das leis naturais envolvidas nos agroecossistemas.

Diferentemente das demais ciências, a Agroecologia considera não apenas os resultados de pesquisas, mas também a sabedoria popular local, das pessoas que lidam com a terra, para produção de alimentos. Isso a torna uma ciência moderna, que atua também sob a perspectiva dos valores e necessidades humanas. De certa maneira, contrasta com a visão clássica, cartesiana, que busca verdades “absolutas” e “isentas”.

Fora da porteira, a Agroecologia estuda questões diversas, que vão desde a logística, o comércio, a saúde das pessoas e até as condições de vida das comunidades rurais e as políticas públicas para a produção de alimentos. Esse conjunto de preocupações para fora da porteira, torna a Agroecologia uma ciência também política e social, além de ecológica e agronômica. Também faz com que a antiga e mofada divisão entre ciências naturais e ciências sociais, de certa forma, perca o sentido.

Por ser assim, a Agroecologia representa, sem dúvida, uma renovação de conceitos, uma quebra de paradigmas, um caminho alternativo ao que vem sendo trilhado pelo agronegócio convencional. E, justamente por questionar o modelo predominante, essa nova ciência obviamente ameaça interesses e crenças já estabelecidos. Segue, portanto, aos poucos, quebrando as resistências e o ceticismo, na trajetória normal de todas as novidades e descobertas humanas.

Pois bem, no caso do Brasil, os discursos e as práticas agroecológicas têm estado, quase sempre, ligados à pequena propriedade agrícola e, como consequência, à agricultura familiar, inclusive aos movimentos sociais que defendem a reforma agrária. De fato, o atual modelo de produção das grandes propriedades agrícolas, dificulta muito a aplicação integral dos conceitos Agroecológicos. Os pontos mais difíceis são a questão das monoculturas e a própria extensão das lavouras.

No entanto, a insistência em bater na velha tecla da reforma agrária, não nos fará avançar. Ao invés disso, as maiores propriedades podem e devem ser beneficiadas agora mesmo, ao optarem por adotar ao menos os primeiros passos da transição agroecológica porteira adentro. E é o que muitas já estão fazendo. São eles:

1. Redução dos insumos e manejos agressivos à vida do solo;
2. Substituição dos insumos e manejos agressivos, por outros que favoreçam a vida;
3. Aumentar a biodiversidade vegetal na área.

De forma paralela, a grande propriedade deve, se quiser se adequar aos novos tempos, adotar outras técnicas e manejos que não vieram necessariamente da Agroecológica, mas que estão em sintonia com ela. Alguns exemplos são: 

1. ILP – integração lavoura-pecuária;
2. ILPF – integração lavoura-pecuária-floresta;
3. Coquetéis de plantas de cobertura, em sucessão às lavouras;
4. Uso de pós de rocha (remineralizadores).

Enquanto isso, nas propriedades de tamanho médio ou pequeno, poderíamos avançar mais com as outras etapas da transição agroecológica, redesenhando todo o seu sistema produtivo, comercial e social. A migração dessas propriedades para o modelo agroecológico, provocará um impacto positivo na renda desses produtores, e principalmente, causará um enorme impacto positivo na saúde de nossa sociedade. Isso pelo fato de que a produção agroecológica gera alimentos mais nutritivos e, quase sempre, mais limpos, sem resíduos de pesticidas, ou defensivos, como queiram.

No caso das grandes propriedades, adotar os primeiros passos da transição agroecológica, juntamente com outras medidas na mesma direção, irá melhorar seus resultados. Além disso, provocará um impacto altamente positivo na questão mais importante para a humanidade hoje: a questão ambiental, incluído aí o aquecimento global, pelo consequente sequestro de Carbono.

A mudança dos modelos atuais de produção agrícola, tanto para os produtores de commodities, quanto para os produtores de alimentos, é necessidade urgente. A melhor forma de fazermos isso é preparando nossos técnicos para usarem a estratégia adequada, de acordo com o tamanho da propriedade e a finalidade da produção. As escolas de agronomia precisam se renovar, ensinar menos sobre produtos e mais sobre sistemas. Quem sabe até precisemos de duas agronomias diferentes: produção agroecológica de alimentos e produção sustentável de commodities.

A agricultura pode sim, promover um salto quântico, tanto na questão da saúde, quanto na solução dos problemas ambientais. Mas precisamos sair da pequenez e da ignorância dos pensamentos imediatistas irresponsáveis, que têm dominado as ações da maioria das empresas e dos políticos. Eles precisam, quem sabe, conhecer o prazer indescritível de fazer a coisa certa. Nossos filhos e netos aguardam nossos próximos passos, ansiosos por saber que tipo de mundo herdarão. Vamos acordar?

Antonio N.S. Teixeira

Diretor Executivo – IBA

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