Outono silencioso

Tudo que li e ouvi até agora, sobre o coronavírus (deixem-me escrever com c minúsculo), fazem crer que teremos, no Brasil, um outono silencioso. Nas cidades, pessoas saindo o mínimo possível de casa, escolas fechadas, os eventos, de trabalho ou lazer, cancelados nos próximos três meses. E é extremamente importante que assim seja. Salvaremos milhares de vidas, principalmente de idosos, se assim procedermos. 

De nada adiantará dizermos que existem outras doenças e causas que matam muito mais. De nada adiantará pensarmos que não é conosco, que não é real. Também não adiantará o pânico, egoísmo, desespero. A única atitude que surtirá efeitos positivos é a da prevenção e obediência às orientações das autoridades competentes. 

Mas…as coisas, infelizmente, não costumam ser tão simples assim. Sempre existem os alienados, os egocêntricos, os ignorantes, como nos prova fartamente a história. Em 1962, a bióloga marinha e escritora Rachel Carson, indignada com as aplicações de DDT nos alimentos, escreveu o bestseller Silent Spring (Primavera Silenciosa). 

A Dra. Rachel nos alertava quanto às consequências para a biodiversidade animal, da aplicação indiscriminada de inseticidas não seletivos. O silêncio, segundo ela, viria da falta de insetos, de passarinhos e outras aves no ambiente.

No Brasil, assim como nos demais países, estamos prestes a vivenciar também um profundo silêncio nas cidades. Este, no entanto, causado, não pela falta de pássaros, mas de seres humanos circulando! Será um silêncio temporário, talvez de três ou quatro meses, mas que pode representar um tempo para reflexão, uma breve parada nesse mundo louco e veloz que chamamos hoje de Terra, nossa casa. 

Se pararmos para pensar, essa diminuição forçada na velocidade do nosso dia-a-dia, não apenas poupará a vida de milhares de pessoas, que não serão infectadas. No Brasil pelo menos, um número até maior de vidas será salva, por outros motivos.

Em nosso País, morrem cinco pessoas por hora, no trânsito. São 120 por dia. Quase oitenta por cento são jovens de até 25 anos. Quantos deixarão de morrer, com essa “parada obrigatória”? Quantos morrem por ano, em festas, bares, em brigas e até em campos de futebol? Ao serem assaltados, por disputas diversas ou mesmo balas perdidas? São mais de 3 mil assassinatos por mês no Brasil. Quantos deixarão de morrer, simplesmente porque não saíram? Sim, me arrisco a dizer que teremos menos mortes, nesse outono silencioso de 2020, mesmo considerando o vírus. 

Isso nos mostra que podemos aprender muito, com esse tempo que teremos para refletir. Podemos começar, por exemplo, a refletir sobre como estamos levando nossas vidas, como estamos gastando nosso tempo. Por enquanto, será uma reflexão solitária, individual, no máximo em família. Mas assim que voltemos à vida “normal”, poderemos avançar, coletivamente, na construção de um mundo melhor, com menos correria. Amor, Compaixão (deixem-me escrever com C maiúsculo), respeito às leis, às pessoas e à Deus, são temas que podem inspirar nossas reflexões, no refúgio de nossos lares.

A reflexão calma e sincera, em nossas casas, em nosso quarto ou debaixo de uma árvore, pode nos trazer mais compreensão, mais paz de espírito e, por que não? Mais contentamento. Pode deixar mais claro para todos nós o que de fato é essencial, o que realmente é importante em nossas breves passagens aqui por esse Planeta. 

Falando de forma mais pragmática, nós, que trabalhamos na agricultura, talvez sejamos menos afetados diretamente, por trabalharmos boa parte do tempo ao ar livre, longe das aglomerações das grandes cidades, dos escritórios ou das fábricas. Mas podemos começar a compreender um pouco melhor a dinâmica envolvida nas contaminações por microrganismos.

Nos será útil no desenvolvimento correto da recente tendência de multiplicação de bactérias benéficas na fazenda. Nos ajudará a entender melhor as doenças das plantas que, ao contrário do que dizem quase todos os livros de agronomia, são causadas por vírus, bactérias e fungos. As infecções com esses microrganismos são, na verdade, consequências de outros fatores. Os principais talvez sejam o uso inadequado de fertilizantes e defensivos, bem como o manejo incorreto dos solos, que se tornam desequilibrados, duros e sem vida.

Esse quadro diminui, no agroecossistema, as possibilidades de vida da grande maioria das espécies. Por sua vez, a menor competição acaba favorecendo um pequeno número de espécies, que então se proliferam de modo exagerado, e que a agronomia insiste em chamar de “doenças”.

Assim como na agricultura, no caso do coronavírus, precisamos, é claro, adotar todas as medidas emergenciais necessárias. Mas também precisamos pensar mais. De que adianta lavar as mãos, ao usar o banheiro do shopping, e depois pegar na maçaneta da porta de saída? De que adianta deixar os idosos em casa se nós, que moramos com eles, estamos indo em aglomerações?

As plantas bem nutridas, em solos equilibrados, desintoxicados, biodiversos, são muito mais resistentes e dificilmente ficam doentes. Assim somos nós também. Portanto, vamos cuidar bem de nós, de nossos filhos e idosos. Com boa alimentação, sono de qualidade, hidratação constante.
  
Vamos também escolher melhor o que lemos, o que ouvimos, o que falamos. Porque essas são portas por onde entram coisas boas ou não, para nossa alma. Elevemos nossos pensamentos e, certamente com eles se elevará também o nosso sistema imunológico. OM MANI PADME HUM.

Antonio N.S. Teixeira
Diretor Executivo – IBA

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