Antoine

Segunda guerra mundial. Primeiro de agosto do ano de 1944. O soldado alemão Horst Rippert acaba de abater um avião das Forças Aéreas Francesas. A aeronave, um P-38 Lightning, e seu piloto, afundaram no lindo mar azul, a poucos quilômetros da costa da Marselha.

Esse avião havia partido no dia anterior, de uma base aérea na Córsega. Antoine, o piloto francês, recebeu a tarefa de recolher informações, sobre o movimento de tropas alemães em torno do Vale do Ródano, antes da invasão aliada do sul da França. Havia completado 44 anos há pouco mais de um mês. Deixou uma esposa, Consuelo, e alguns livros que escreveu. Conversar com amigos e escrever, além de voar, eram as coisas que mais gostava de fazer.

Seu livro mais famoso foi escrito apenas um ano antes de sua trágica morte. O título? “O Pequeno Príncipe”, que viria a ser, anos mais tarde, um dos livros mais vendidos de todos os tempos. Sim, aquele piloto era Antoine de Saint-Exupéry! Seu corpo nunca foi encontrado, mas em 1998, Jean Claude Bianco, um pescador de Marselha, pescou uma pulseira prateada, com o nome de Antoine e da mulher, inscritos.

Como é possível, um piloto, no meio de uma guerra, escrever um livro tão doce, tão cheio de amor? Milhões de pessoas, principalmente jovens, recebem, a cada geração, a brisa inspiradora que sai das páginas desse livro infantil, mágico, e ao mesmo tempo profundo. Enquanto escrevia “O Pequeno Príncipe”, sentado na grama, à sombra da asa de seu pequeno avião, será que Antoine poderia imaginar a influência que aquele livro teria, na vida de milhões de pessoas? Duvido. Mas se Antoine tivesse vivido apenas mais um ano, teria a alegria de presenciar o fim da guerra, a mais absurda ignorância que os homens podem cometer.

Grandes decisões humanas, para o bem ou para o mal, começam a partir de ações individuais de algumas poucas pessoas. A história é repleta de exemplos, nesse sentido. Acredito sinceramente que são essas pequenas ações individuais, ou em pequenos grupos, é que vão aos poucos moldando, construindo o nosso futuro, enquanto sociedade humana. Enquanto agimos, quase nunca temos a noção de que podemos estar nos conectando a uma rede mundial invisível, que gosto de chamar de sintonia.

Nesse exato momento, estamos desenvolvendo novos modelos de produção agrícola, com base na Agroecologia em larga escala. Estamos orientando produtores e consultores para uma transição segura, do modelo químico, para modelos de base ecológica. Todos sabemos que o modelo anterior chegou no seu limite, mas migrar para novos modelos nem sempre é simples. É preciso conhecimento holístico, multidisciplinar, é preciso doses moderadas de ousadia e coragem, é preciso querer e acreditar que é possível.

Nesses dez anos, conhecemos alguns consultores e produtores que também vêm realizando ações, dentro dessa mesma sintonia: a de viabilizar, criar procedimentos, parâmetros confiáveis para essa transição, nas diversas culturas. Não é uma tarefa só dos pesquisadores, nem só dos consultores, nem só dos produtores. Aí é que está a chave: todos juntos podemos avançar mais rápido. O intercâmbio é fundamental, mas exige mais humildade, menos vaidade. Mais espírito solidário, coletivo, menos egoísmo. Mente aberta, coração aberto; é assim que se constroem novos caminhos.

Percebo que as práticas adotadas pelo agronegócio nas últimas quatro décadas, tiraram de quase todos os produtores a condição de protagonistas, na produção de alimentos. A prática do dia a dia, as observações ao longo de cada safra, a experimentação e a troca de ideias com seu consultor, foram substituídas pelas receitas prontas e os “pacotes” oferecidos pelas empresas fabricantes dos insumos agrícolas. O produtor foi, aos poucos, se acanhando, sentindo-se ultrapassado pelas novas “tecnologias de ponta”. Passou a aceitar a informação, ao invés de gerar conhecimento. Passou a obedecer, ao invés de propor. Subestimou o valor da experiencia; sua, do time da fazenda, do seu consultor. Tornou-se um mero aplicador de insumos. E o consultor, se tornou um “receitador” de insumos.

Então, como reação a tudo isso, começam a surgir grupos de produtores e consultores, em todas as partes, com o desejo de retomar o protagonismo na produção de alimentos. Vejo esse movimento de forma bem positiva. Diversas ações estão ocorrendo, de forma simultânea, na busca de novos modelos de agricultura e de pecuária. Em meio a uma grande diversidade de interesses, é preciso que o foco seja o desenvolvimento e a implantação de modelos melhores, mais inteligentes, sustentáveis e lucrativos.

Aquelas empresas de insumos que insistirem em ser protagonistas, cairão do cavalo. Suas armas de domínio: o medo, o crédito e a bajulação, estão com os dias contados. Produtores e consultores estão reassumindo as rédeas da produção de alimentos. A exemplo da indústria de autopeças, sairão na frente as empresas que criarem ferramentas adequadas aos novos modelos. Os produtores comprarão modelos (sistemas), não produtos (ferramentas).

Ao invés de empurrar seus produtos, as empresas de vanguarda vão procurar estar sempre sintonizadas com as novas necessidades, que surgirão para atender aos novos modelos. Será necessário reduzir equipes de venda e marketing, e aumentar equipes encarregadas da criação e desenvolvimento de novas soluções. O novo produtor saberá muito bem o que precisa comprar; não precisará de alguém para convencê-lo.  Discutirá isso com seu consultor a depender do modelo produtivo que escolheu. Também surgirá a necessidade de intercâmbio mais próximo entre as empresas e esses consultores autônomos, mas, dessa vez, em novas bases. Nada de bajulação, comissões e outras ações de ética duvidosa. As empresas devem mostrar interesse genuíno em entender as demandas dos novos modelos e colocar seu ativo humano para criar ferramentas compatíveis.

A produção de alimentos deve ser, obviamente, uma atividade lucrativa. E não há absolutamente nenhum antagonismo entre lucratividade e sustentabilidade. Tenho visto que os modelos mais sustentáveis são exatamente os mais lucrativos. Com a vantagem de permitir com que as futuras gerações também ganhem dinheiro nas mesmas terras que usamos hoje. O futuro é nosso, e depende de nossas ações e decisões do agora.

O Sr Maurício Brandão é um produtor de café em Patrocínio, Minas, e meu cliente. No dia em conheceu nosso trabalho de orientação em modelos agroecológicos, me deu um pedaço de papel. Nele estava escrito uma das melhores frases de Antoine, o aviador. Considerei aquilo um sinal, um estímulo para seguir em frente, na tarefa de construir novos caminhos. Deixo-a aqui, para vocês:

“O futuro não é um lugar para onde estamos indo; é um lugar que estamos criando. O caminho para ele não é encontrado, mas construído. E o ato de fazê-lo, muda, tanto o realizador, quanto o destino.”         

Antoine de Saint-Exupéry

Antonio N. S. Teixeira

Diretor Executivo – IBA

Este post tem um comentário

  1. Espetacular o texto! Parabéns pela analogia, inteligente e atual. Sejamos então os protagonistas da nova política e faremos um futuro melhor para nossos descendentes.

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